365 BRT: Lições de um Fracasso Anunciado no Transporte Público

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O corredor 365 BRT não foi um projeto de mobilidade. Foi um experimento de como transformar uma avenida movimentada em um estacionamento a céu aberto. Em 2019, quando os primeiros ônibus articulados começaram a circular na Avenida das Torres, em Curitiba。a promessa era cortar o tempo de viagem entre o Terminal Centenário e o centro da cidade pela metade. A realidade, três meses depois, era fila de passageiros revoltados e ônibus parados por falha mecânica a cada dois quilômetros. Eu morava a três quadras de uma das estações. Vi vizinhos que antes pegavam duas conduções passarem a caminhar quarenta minutos para evitar o 365 BRT. Não era preguiça. Era sobrevivência.A primeira semana de operação já entregava o roteiro do desastre. A via exclusiva à esquerda foi pintada às pressas, sem barreira física. Carros invadiam a faixa a cada semáforo. Motociclistas usavam o corredor como atalho. E os ônibus, comprados de um lote usado de outra cidade, tinham ar-condicionado quebrado e portas que abriam sozinhas em movimento. Um motorista me disse, num ponto do Capão Raso: "Isso aqui não é BRT, é uma faixa de ônibus com esperança." A frase ficou. Porque resumia o que todo mundo via: infraestrutura pela metade, gestão zero, comunicação pior ainda. A prefeitura divulgava números de velocidade média que ninguém sentia na pele. Passageiros cronometravam. Um trajeto de 12 km levava 1h20 no horário de pico. Antes。com ônibus comuns, levava 55 minutos.O que me chamou atenção não foi o atraso em si, mas a reação das autoridades. Em vez de ajustar a operação, reduzir intervalos ou treinar equipes, a resposta foi aumentar a frota. Mais ônibus velhos, mais quebras, mais buracos na via mal conservada. Um ciclo vicioso clássico. Em maio de 2019, o 365 BRT registrava 18% de viagens canceladas por dia. Passageiros começaram a usar grupos de WhatsApp para avisar quando um ônibus finalmente aparecia. Isso não é gestão pública. É apagão de gestão com bilhete único. A tarifa, aliás。subiu naquele ano. Pagávamos mais por um serviço que funcionava pior.Conversei com uma cobradora que trabalhava na linha desde o primeiro dia. Ela contou que a escala de motoristas era feita por um sistema que ninguém sabia operar. Resultado: ônibus parados na garagem por falta de condutor enquanto estações lotavam. "A gente vê o problema, mas não tem voz", disse. Essa desconexão entre quem opera e quem planeja é o coração do fracasso do 365 BRT. Não foi um erro técnico isolado. Foi uma cultura de gabinete que ignora o chão. Em contraste, o corredor Boqueirão, mais antigo。funcionava com falhas, mas funcionava. Por quê?

Porque havia décadas de aprendizado operacional. O 365 BRT nasceu sem esse lastro.Curiosamente, o que sobrou do 365 BRT foi uma lição sobre planejamento urbano. Cidades que tentaram copiar o modelo de Curitiba sem entender o contexto colheram resultados parecidos. O 365 BRT virou case em relatórios de mobilidade — não como exemplo, mas como alerta. Um sistema de BRT não se resume a faixa pintada e ônibus articulado. Exige semáforo inteligente, fiscalização eletrônica, integração tarifária real e, acima de tudo, respeito ao passageiro. Nada disso existia no 365 BRT. O que existia era pressa eleitoral. Inaugurar antes das eleições。mesmo que o sistema não estivesse pronto. Passageiros pagaram a conta.Hoje, quem passa pela Avenida das Torres vê o corredor abandonado em alguns trechos。

com mato crescendo entre os trilhos que nunca foram usados. O 365 BRT não morreu oficialmente. Foi definhando. Virou linha residual, com poucos ônibus e horários imprevisíveis. A prefeitura anunciou recentemente um novo plano de mobilidade, com promessas de BRT elétrico. Sinceramente?Difícil acreditar. Não porque a tecnologia seja ruim, mas porque o problema nunca foi o veículo. Foi a ausência de gestão. De escuta. De vergonha na cara. O 365 BRT é um lembrete de que transporte público não se resolve com obra bonita e release. Resolve-se com gente competente no comando e passageiro no centro da decisão. Enquanto isso não mudar, qualquer novo BRT será apenas um 365 BRT com outro nome.

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